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quarta-feira, 19 de março de 2014

A mais longa viagem: rumo ao próprio coração


Observava o grande conhecedor dos meandros da psique humana C.G. Jung: a viagem rumo ao próprio centro, ao coração, pode ser mais perigosa e longa do que a viagem à lua. No interior humano habitam anjos e demônios, tendências que podem levar à loucura e à morte, e energias que conduzem ao êxtase e à comunhão com o Todo.
Há uma questão nunca resolvida entre os pensadores da condição humana: qual é a estrutura de base do ser humano? Muitas são as escolas de intérpretes. Não é o caso de sumariá-las.
Indo diretamente ao assunto, diria que essa estrutura de base não é a razão, como comumente se afirma. Ela não irrompe como primeira, mas remete a dimensões mais primitivas de nossa realidade humana, das quais se alimenta, e que a perpassam em todas as suas expressões. A razão pura kantiana é uma ilusão. A razão sempre vem impregnada de emoção, de paixão e de interesse. Conhecer é sempre um entrar em comunhão interessada e afetiva com o objeto do conhecimento.
Mais que ideias e visões de mundo, são as paixões, sentimentos fortes, experiências seminais que nos movem e nos põem em marcha. Eles nos levantam, nos fazem arrostar perigos e até arriscar a própria vida.
O primeiro parece ser a inteligência cordial, sensível e emocional. Suas bases biológicas são as mais ancestrais, ligadas ao surgimento da vida, há 3,8 bilhões de anos, quando as primeiras bactérias irromperam no cenário da evolução e começaram a dialogar quimicamente com o meio para poderem sobreviver. Esse processo se aprofundou a partir do momento em que, há milhões de anos, surgiu o cérebro límbico dos mamíferos, cérebro portador de cuidado, enternecimento, carinho e amor pela cria, gestada no seio desta espécie nova de animais, à qual nós humanos também pertencemos. Em nós ele alcançou o patamar autoconsciente e inteligente. Todos nós estamos vinculados a esta tradição primeva.
O pensamento ocidental, logocêntrico e antropocêntrico, colocou o afeto sob suspeita: ele seria prejudicial à objetividade do conhecimento. Houve um excesso, o racionalismo, que chegou a produzir em alguns setores da cultura uma espécie de lobotomia, quer dizer, uma completa insensibilidade face ao sofrimento do ser humano e dos demais seres, e da própria Mãe Terra. O papa Francisco, em Lampedusa, face aos imigrados africanos, criticou a globalização da insensibilidade, incapaz de se compadecer e de chorar.
Mas, podemos dizer que a partir doromantismo europeu (com Herder, Goethe e outros) se começou a resgatar a inteligência sensível. O romantismo é mais que uma escola literária. É um sentimento do mundo, de pertença à natureza e da integração dos seres humanos na grande cadeia da vida (Löwy e Sayre, Revolta e melancolia, 28-50).
Modernamente, o afeto, o sentimento e a paixão (pathos) ganharam centralidade. Esse passo é hoje imperativo, pois somente com a razão (logos) não damos conta das graves crises por que passam a vida, a Humanidade e a Terra. A razão intelectual precisa integrar a inteligência emocional, sem o que não construiremos uma realidade social integrada e de rosto humano. Não se chega ao “coração” do coração sem passar pelo afeto e pelo amor.
Um dado, entretanto, cabe ressaltar, entre outros importantes, por sua relevância e pela alta tradição de que goza: é a estrutura do desejo que marca a psique humana. Partindo de Aristóteles, passando por Santo Agostinho e pelos medievais, como São Boaventura (chama a São Francisco de vir desideriorum, um homem de desejos); por Schleiermacher, Max Scheler, nos tempos modernos; e culminando em Sigmund Freud, Ernst Bloch e René Girard, nos tempos mais recentes, todos afirmam a centralidade da estrutura do desejo.
O desejo não é um impulso qualquer. É um motor que dinamiza e põe em marcha toda a vida psíquica. Ele funciona como um princípio, traduzido também pelo filósofo Ernst Bloch por princípio esperança.  Por sua natureza, o desejo é infinito e confere o caráter infinito ao projeto humano.
O desejo torna dramática e, por vezes, trágica a existência. Mas também, quando realizado, produz uma felicidade sem igual. Por outro lado, produz grave desilusão quando o ser humano identifica uma realidade finita como sendo o objeto infinito desejado. Pode ser a pessoa amada, uma profissão sempre ansiada, uma propriedade, uma viagem pelo mundo, ou uma nova marca de celular.
Não passa muito tempo, e aquelas realidades desejadas lhe parecem ilusórias e apenas fazem aumentar o vazio interior, grande, do tamanho de Deus. Como sair deste impasse, tentando equacionar o infinito do desejo com o finito de toda realidade? Vagar de um objeto a outro, sem nunca encontrar repouso? O ser humano tem que se colocar seriamente a questão: qual é o verdadeiro e obscuro objeto de seu desejo? Ouso responder: este é o Ser e não o ente, é o Todo e não a parte, é o Infinito e não o finito.
Depois de muito peregrinar, o ser humano é levado a fazer a experiência do cor inquietum de Santo Agostinho, o incansável homem do desejo e o infatigável peregrino do Infinito. Em sua autobiografia, As confissões, Agostinho testemunha com comovido sentimento:
“Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova. Tarde te amei. Tu me tocaste e eu ardo de desejo de tua paz. Meu coração inquieto não descansa enquanto não repousar em ti” (livro X, n. 27).
Aqui temos descrito o percurso do desejo que busca e encontra o seu obscuro objeto sempre desejado, no sono e na vigília. Só o Infinito se adéqua ao desejo infinito do ser humano. Só então termina a viagem rumo ao coração e começa o sábado do descanso humano e divino.


Leonardo Boff -  teólogo, filósofo e escritor - autor de vários livros, entre os quais “Tempo de Transcendência: O ser humano como projeto infinito”, (Vozes, 2002).

sábado, 3 de agosto de 2013

Um credo mínimo de um cristianismo essencial


1. Desde há quase meio século, o tema da fé se enquadra, para mim, nestas duas frases, um de um cristão e outra de um não crente. A primeira é a profecia de Emmanuel Mounier: no futuro, os homens não se dividirão conforme acreditem ou não em Deus, mas segundo a postura que tomarem diante dos pobres. A outra é a estrofe impactante de Atahualpa Yupanki: “há coisas neste mundo mais importantes do que Deus, que um homem não cuspa sangue para que outros vivam melhor”, o que sempre tenho visto como um bom resumo do modo como Deus se revelou em Jesus Cristo (há coisas neste mundo mais importantes que eu…).

2. Esta visão da fé se estrutura em duas linhas mestres do Novo Testamento:

2.1. A primeira, em positivo, é o repetido mandamento do amor fraterno, que não apenas o texto bíblico abarca, mas também está presente em quase todas as religiões, embora no Novo Testamento adquira uma harmonia particular: é um velho mandamento que se converte em “novo”, pois resume e interpreta todos os demais mandamentos. E é um mandamento explicitamente universal: de tal forma que não se trata apenas de amar “meus” irmãos, mas, sim, que todos os seres humanos são meus irmãos: o adjetivo “fraterno” não limita, mas amplia o mandamento do amor. O “próximo” não é o próximo a você, mas aquele a quem você deve se aproximar, disse Jesus numa parábola.

2.2. E, em negativo, a visão do dinheiro como o grande inimigo de Deus. Visão que atravessa os Evangelhos (“não podeis servir a Deus e ao dinheiro”), os textos paulinos (“a cobiça é idolatria” e “a raiz de todos os males é a paixão pelo dinheiro”) e os joaninos (“se alguém possui bens da terra, vê o seu irmão passar necessidade e não o socorre, o amor de Deus não está com ele”).

3. Este duplo resumo da minha fé (melhor que de resumo, falaria de “coração”, pois a realidade humana abarca muitos outros aspectos) tem hoje, após vinte séculos de distância do mundo de Jesus, um imprescindível componente estrutural (não apenas pessoal), que não cabe ignorar. Se a partir daqui, enxergo hoje o nosso mundo, poderia escrever outro Manifesto que começasse: “Um espectro ronda o mundo”. Contudo, agora, falando sério (e não ironicamente, como no Manifesto do século XIX), esse espectro, essa grande ameaça, não é o comunismo, mas o sistema capitalista. Por mais que se fantasie com belas palavras de liberdade ou progresso, o coração desse sistema não é mais do que a riqueza e o poder: a riqueza que gera o poder e o poder que gera a riqueza. É um sistema não fraternal, cujas células-mãe tendem a conformar um mundo onde uns poucos (cada vez mais poucos) dominam a maioria. E o momento que o nosso mundo vive, atualmente, é aquele em que está coalhando e tomando corpo essa tendência.

Em anos anteriores, essa tendência esteve detida por dois fatores históricos: o socialismo da União Soviética que, mesmo com todos os seus desastres, assustou o capitalismo e o forçou a fazer algumas concessões, e o socialismo da chamada “social-democracia”, que procurou cumprir uma via média entre os outros dois extremos. A queda do pseudo-império soviético colocou fim a esse equilíbrio instável e desatou a dinâmica totalitária do capitalismo, permitindo-lhe mostrar seu verdadeiro rosto. Não importa o que as pessoas simples perguntem: para que querem tanto dinheiro? Para que alguém vai querer trinta e seis milhões de litros de água, se não poderá bebê-los em toda a sua vida?… Por mais elementares que pareçam estes tipos de perguntas, são incompreensíveis para os narcotizados pelo deus Mamon.

A partir daqui, parece-me que nossa hora histórica marca uma tendência quase imparável, não a de “desenvolver o Terceiro Mundo”, como era dito antes, mas a “tercermundializar” o mundo desenvolvido. Há poucos anos, já começamos a falar de “quarto mundo” (os enclaves de miséria no meio do primeiro), mas essa expressão vai ficando curta, e ficará muito mais curta quando passar a crise econômica e, como um furacão do Caribe, deixar destruída mais da metade do estado social que acreditávamos ter conquistado. O mundo ficará reduzido a um ou dois por cento da humanidade, imensamente rico (mesmo repletos de lutas internas para derrubar o outro), e uma grande maioria humana submetida a uma ditadura camuflada de grandes palavras (civilização, progresso, desenvolvimento, liberdade…) utilizadas como justificativas para a crueldade dessa tirania.

Não será improvável que algum dia essa maioria exploda incontrolavelmente, mas também não será fácil, porque sempre existe esse colchão amortecedor daqueles que não pertencem nem à minoria dos canalhas, nem à maioria dos infra-humanos, desses que foram chamados “o segundo terço” e que são os que mais temem perder sua posição, caindo no abismo dos miseráveis. Eles, sem querer, podem atuar como para-raios de uma revolução desesperada e louca. E, além disso, os tiranos contam sempre com o antigo recurso defensivo (panem et circenses: pão e circo) que hoje poderíamos traduzir como “Ipad e circo”.

4. Entretanto, não se trata de fazer profecias. A última conclusão destas reflexões é que, se o dinheiro é o maior ídolo inimigo do homem, é assim porque é o maior inimigo de Deus, revelado por Jesus. Da mesma forma em que capitalismo e democracia são largamente incompatíveis, capitalismo e fé cristã também são. As igrejas que atualmente se perguntam a respeito da descristianização do Ocidente, acabam não percebendo isto, pois elas próprias são cúmplices desse processo, em seus organismos diretivos. Os ateus que perderam a fé também não percebem que seja em razão desse processo, no qual eles são apenas pequenas gotas de água de um tsunami epocal. Desta forma, o que ficará restando do cristianismo no Ocidente será apenas um cristianismo não cristão: fundamentalista no dogmático e servidor do dinheiro na moral. Um cristão já anunciado em tantas seitas norte-americanas, que são como primeiras nuvens da tormenta que acabará vindo.

5. Para terminar, não me resta nada mais do que evocar a frase de Ignacio Ellacuría, da forma como costumo reformulá-la: “uma civilização da sobriedade compartilhada” (Ellacuría dizia uma civilização da pobreza) é a única oferta de vida que permanece para o nosso mundo. Para crentes e para não crentes. Se não a levamos muito a sério, talvez seja o momento de ler esses capítulos que encerram os evangelhos, mudando todo o discurso anterior de Jesus (Marcos 13 ou Mateus 24), e começar a compreender que nem este mundo tem futuro, nem Deus pode ter lugar num mundo como este.


Fonte: IHU de 12 de abril de 2013 ou o site Religion Digital de  12/04/2013 - Veja também o livro: Cristianismo: o mínimo do mínimo (Vozes 2012)

sábado, 29 de junho de 2013

Sobre a coragem de mudar


Em tempos passados o normal era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer, ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como acontecia também com os casamentos. Para sempre, até que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que as pessoas descobriram que é possível mudar a direção do vôo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direção até o fim. Eu mudei minhas direções várias vezes e não me arrependo. Meu amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança. Segurança dá tranquilidade à família. Mas enquanto ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa Lucília: “Meu bem, vou vender o consultório”. E assim, com mais de quarenta anos, voltou para a estaca zero e foi se preparar para o vestibular… E ele seguiu um caminho feliz! Está com 82 anos, tem cara de 60, disposição de 40 e leveza de criança! Cada profissão delimita um mundo: há o mundo dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos, dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O jovem estudante do filme Sociedade dos poetas mortos sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina… Dezoito ou dezenove anos é muito cedo para definir o que se vai fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de procuras, indefinições, sonhos confusos. É normal que, ao meio do curso universitário, o jovem descubra que tomou o trem errado e se disponha a saltar na próxima estação. É angústia para os pais. Claro, porque o que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado, ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permissão para morrer… Mas não seria terrível para ele – ou ela – se, só para não “perder tempo”, “só para não voltar ao início”, continuasse até o fim? Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas? Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil. E nem fiquem com a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho. Não dará. Assim é melhor ir devagar seguindo a direção que o coração manda. O difícil, para os pais, será se o filho, no último ano de direito, lhes comunique: “Descobri que não gosto de Direito. Vou estudar para ser palhaço!” Aí posso imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio a uma reunião social, quando se fala sobre os filhos, alguém lhes dirija a palavra e diga: “Meu filho está no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?” Resposta: “O nosso está no circo. Vai ser palhaço…” Cá entre nós: não sei qual profissão dá mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço…

Rubem Alves

sábado, 15 de junho de 2013

A atualidade do espírito de Francisco


Pelo fato de o atual papa ter escolhido o nome de Francisco, muitos voltaram a se interessar por esta figura singular, talvez uma das mais luminosas que o cristianismo e o próprio Ocidente já produziram: Francisco de Assis. Há quem o chame de o “último cristão” ou o “primeiro depois do Único”, quer dizer, Jesus Cristo.

Seguramente, podemos dizer: quando o cardeal Bergoglio escolheu este nome quis sinalizar um projeto de Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e abadias grandiosas. São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade, vivendo entre os hansenianos e comendo com eles da mesma escudela. Nunca criticou o papa, ou Roma. Simplesmente, não lhes seguiu o exemplo. Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: “Quero ser um novellus pazzus”, um novo louco; louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: “Desejo pouco, e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade, era nada. Despojou-se de qualquer título. Considerava-se “idiota, mesquinho, miserável e vil”.

Este caminho espiritual, vivido a duras penas, pois, na medida em que mais seguidores acorriam a ele, mais se opunham, querendo conventos, regras e estudos. Resistiu o mais que pôde e, no fim, teve que se render à mediocridade e à lógica das instituições que pressupõem regras, ordem e poder. Mas não renunciou ao seu sonho. Frustrado, voltou a servir aos hansenianos, deixando que seu movimento, contra sua vontade, fosse transformado na Ordem dos Frades Menores.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma fraternidade tão universal que inclua a todos, como ele o fez: o sultão do Egito que encontrou na cruzada, o bando de salteadores, o lobo feroz de Gúbbio e até a morte?

Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização mediante uma prática vivida com simplicidade e paixão. Ao não possuir nada, entreteve uma relação direta de convivência e não de posse com cada ser da criação. Ao ser radicalmente humilde, colocou-se no mesmo chão (húmus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Sentiu-se irmão da água, do fogo, da cotovia, da nuvem, do sol e de cada pessoa que encontrava. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, papas ou servos da gleba que fossem, para cima com o sol, a lua e as estrelas. Todos são irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai de bondade.

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tira a minhoca do caminho para que não seja pisada; enfaixa um galhinho quebrado para que se recupere; alimenta no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, perdidas. Colocou-se no meio das criaturas com profunda humildade, sentindo-se irmão delas. Confraternizou-se com a “irmã e Mãe Terra”. Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens, rechaçando tudo o que poderia colocá-lo acima de outras pessoas e acima das coisas, possuindo-as, emergiu como irmão universal. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coração puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado, cheio de confiança e ternura.

A fraternidade universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres. Essa fraternidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para a fraternidade humana. Sem esse respeito e essa fraternidade, dificilmente a Declaração dos Direitos Humanos terá eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Esta sua postura de fraternidade cósmica, assumida seriamente, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real, nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra” com respeito e cuidado. Essa fraternidade demanda inarredável paciência, mas encerra também uma grande promessa: ela é realizável. Não estamos condenados a liberar o animal feroz que nos habita e que ganhou forma em Videla, Pinochet, Fleury e em outros covardes torturadores.

Oxalá o papa Francisco de Roma, em sua prática de pastor local e universal, honre o nome de Francisco e mostre a atualidade dos valores vividos pelo fratello de Assis.


Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor - escreveu o livro 'Francisco de Assis: Saudade do paraíso'(Vozes, 1999) – em escritos em rede 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Francisco de Roma e a ecologia de Francisco de Assis



Não pode ser em vão que um papa assuma o nome de Francisco. Além de ser referência de um outro modo de ser Igreja, mais próxima à gruta de Belém do que aos palácios de Jerusalém, Francisco de Assis suscita uma temática de extrema urgência nos dias atuais: a questão da salvaguarda da vitalidade do planeta Terra e a garantia do futuro de nossa civilização. Para esse propósito é insuficiente apenas a ecologia exterior. Precisamos amalgamá-la com a ecologia interior. Foi o que fez de forma paradigmática São Francisco de Assis.

Ecologia exterior é aquela sintonia fina que elaboramos em consonância com os ritmos da natureza e com o processo cósmico que se realiza na dialética de ordem-desordem-interação-nova-ordem. Esta ecologia garante a perpetuidade do processo evolucionário que inclui a Terra e a biodiversidade. Mas, no nível humano, ela somente ocorre se houver uma contrapartida nossa que deriva da ecologia interior. Por ela, o universo e seus seres estão dentro de nós na forma de símbolos que falam, de arquétipos que nos orientam e ide imagens que habitam nossa interioridade: materiais com os quais devemos continuamente dialogar e integrar. Se há violência na ecologia exterior é sinal de que há turbulência em nossa ecologia interior e vice-versa. Não sabemos harmonizar as ecologias enunciadas por F. Guattari e por mim: a ambiental, a social, a mental e a integral.

Em seu Cântico do irmão Sol, São Francisco revela a convivência destas duas ecologias. Seu extraordinário feito espiritual foi o de reconciliar o universo com Deus, o céu com a Terra e a vida com a morte. Para entender esta experiência de totalidade precisa-se ler o texto para além de sua letra e descer ao nível simbólico onde os elementos cantados vêm impregnados de emoção e de significação simbólica. O contexto existencial é significativo: Francisco está muito doente e quase cego, cuidado por Santa Clara na capelinha de São Damião, onde ela vivia com suas irmãs. De repente, em plena noite, teve uma espécie de exaltação do espírito, como se estivesse já no reino dos céus. Irradiante de alegria, levanta-se, compõe um hino a todas as criaturas, cantando-o com seus confrades. Celebra o grande esponsal entre o “senhor irmão Sol” e a “irmã senhora Terra”. Deste esponsal nascem todos os seres, ordenados em pares, masculino e feminino, que, segundo C.G.Jung, constituem o arquétipo mais universal da totalidade psíquica: sol-lua, vento-água, fogo-terra, totalidade esta alcançada em sua caminhada espiritual.

O hino contém ainda duas estrofes, acrescentadas pelo Poverello. Nelas, não é mais o cosmos material que é cantado, mas o cosmos humano, que também busca reconciliação: a do bispo de Assis com o prefeito. Por fim se reconcilia com a irmã morte, o complexo mais difícil de ser integrado pelo aparato psíquico humano. O ser humano se reconcilia com outro ser humano. A vida abraça a morte como irmã, portadora da eternidade.

A ecologia interior integrada com a ecologia exterior encontra em Francisco um intérprete privilegiado. Ele é como uma finíssima corda do universo na qual a nota musical mais sutil ressoa e se faz ouvir.

A nossa cultura é devedora do pai de São Francisco, Pedro Bernardone, rico comerciante de tecidos, buscando riqueza e fausto. Confessa Arnold Toynbee, o grande historiador inglês: “Francisco, o maior dos homens que viveram no Ocidente, deve ser imitado por todos nós, pois sua atitude é a única que pode salvar a Terra” (jornal ABC, Madri, 19/12/1972, pág.10).

Qual o nosso desiderato? Que Francisco de Roma se coloque sob a inspiração de Francisco de Assis, transforme-se, por sua humildade, pobreza e jovialidade, num amante da Mãe Terra e num defensor de todo tipo de vida, especialmente daquela mais ameaçada que é a dos pobres. E que suscite essa consciência na humanidade. Nele estão presentes todos os carismas que o podem fazer um farol de referência ecológica e humanitária para todo o mundo.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor – autor de 'Ecologia: Grito da Terra, grito dos pobres' (Sextante, Rio, 2004).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Papa Francisco - Promotor da consciência ecológica?



Cresce mais e mais a consciência de que entramos numa fase perigosa da vida na Terra. Nuvens escuras nos ocultam as estrelas-guias e nos advertem para eventuais tsunamis ecológico-sociais de grande magnitude. Faltam-nos líderes com autoridade e com palavras e gestos convincentes que despertem a humanidade, especialmente as elites dirigentes, para o destino comum da Terra e da Humanidade e para a responsabilidade coletiva e diferenciada de garanti-lo para todos.

É neste contexto que a figura do bispo de Roma, Francisco, poderá desempenhar um papel de grande relevância. Ele explicitamente se religa à figura de São Francisco de Assis. Primeiramente pela opção clara pelos pobres, contra a pobreza e pela justiça social, opção nascida inicialmente no seio da Igreja da libertação latino-americana em Medellin (1968) e Puebla (1979) e feita, segundo João Paulo II, patrimônio da Igreja Universal. Esta opção, bem o viram teólogos da libertação, inclui dentro de si o Grande Pobre que é nosso planeta super-estressado, pois a pisada ecológica da Terra foi já ultrapassada em mais de 30%. Isso nos remete a um segundo ponto: a questão ecológica, vale dizer, como devemos nos relacionar com a natureza e com a Mãe Terra? E’ neste particular que Francisco de Assis pode inspirar a Francisco de Roma. Há elementos em sua vida e prática que são atitudes-geradoras. Vejamos algumas.Todos os biógrafos do tempo (Celano, São Boaventura, Legenda Perugina e outros) atestam “o terníssimo afeto que [São Francisco] nutria para com todas as criaturas”; “dava-lhe o doce nome de irmãos e irmãs, de quem adivinhava os segredos, como quem já gozava da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Recolhia dos caminhos as lesmas para não serem pisadas; dava mel às abelhas no inverno para que não morressem de frio ou de escassez; pedia aos jardineiros que deixassem um cantinho livre, sem cultivá-lo, para que aí pudessem crescer todas as ervas, inclusive as daninhas, pois “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.

Aqui notamos um outro modo-de-estar no mundo, diferente daquele da modernidade. Nesta, o ser humano está sobre as coisas como quem as possui e domina. O modo-de-estar de Francisco é colocar-se junto com elas para conviver como irmãos e irmãs em casa. Ele intuiu misticamente o que hoje sabemos por um dado de ciência: todos somos portadores do mesmo código genético de base; por isso um laço de consanguinidade nos une, fazendo que nos respeitemos e amemos uns aos outros e jamais usemos de violência entre nós. São Francisco está mais próximo dos povos originários, como os yanomamis ou os andinos, que se sentem parte da natureza, do que dos filhos e filhas da modernidade técnico-científica, para os quais a natureza, tida como selvagem, está ao nosso dispor para ser domesticada e explorada.

Toda modernidade se construiu quase que exclusivamente sobre a inteligência intelectual; ela nos trouxe incontáveis comodidades. Mas não nos fez mais integrados e felizes, porque colocou em segundo plano, ou até recalcou, a inteligência emocional, ou cordial, e negou cidadania à inteligência espiritual. Hoje se faz urgente amalgamar estas três expressões da inteligência, se quisermos desentranhar aqueles valores e sentimentos que têm nelas o seu nicho: a reverência, o respeito e a convivência pacífica com a natureza e a Terra. Esta diligência nos alinha com a lógica da própria natureza que se consorcia, inter-retro-conecta todos com todos e sustenta a sutil teia da vida.

Francisco viveu esta síntese entre a ecologia interior e a ecologia exterior, a ponto de São Boaventura chamá-lo de “homo alterius saeculi” “um homem de um outro tipo de mundo”; hoje diríamos: de outro paradigma.

Esta postura será fundamental para o futuro de nossa civilização, da natureza e da vida na Terra. O Francisco de Roma dever-se-á fazer o portador dessa herança sagrada, legada por São Francisco de Assis. Ele poderá ajudar toda a humanidade a fazer a passagem deste tipo de mundo que nos pode destruir para um outro, vivido em antecipação por São Francisco, feito de irmandade cósmica, de ternura e de amor incondicional.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor - autor de “A oração de São Francisco pela paz”, Vozes 2009 – em escritos em rede 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O papa que paga as próprias contas



O que convence as pessoas não são as prédicas, mas as práticas. As ideias podem iluminar. Mas são os exemplos que atraem e nos põem em marcha. Eles são logo entendidos por todos. As muitas explicações mais confundem que esclarecem. As práticas falam por si.

O que tem marcado o novo Papa Francisco, aquele “que vem do fim do mundo”, quer dizer de fora dos quadros europeus, tão carregados de tradições, palácios, espetáculos principescos e de disputas internas de poder, são gestos simples, populares, óbvios para quem dá valor ao bom senso comum da vida. Ele está quebrando os protocolos e mostrando que o poder é sempre uma máscara e um teatro, como bem pontualizou o sociólogo Peter Berger, mesmo em se tratando de um poder pretensamente de origem divina.

O Papa Francisco simplesmente obedece ao mandato de Jesus que explicitamente disse: “os grandes deste mundo mandam e dominam, mas com vocês não deve ser assim; se alguém quiser ser grande, seja servidor; quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos; pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10-43-45). Bem, se Jesus disse isso, como pode o garante de sua mensagem, o Papa, agir diferentemente?

Na verdade, com a constituição da monarquia absolutista dos Papas, especialmente a partir do segundo milênio, a instituição eclesiástica herdou os símbolos do poder imperial romano e da nobreza feudal: roupas vistosas (como as dos cardeais), ouropéis, cruzes e anéis de ouro e prata e hábitos palacianos. Nos grandes conventos religiosos que vêm da Idade Média se vivia em espaços palacianos.

Como estudante, no quarto em que me hospedava no convento franciscano de Munique, que remonta ao tempo de Guilherme Ockham (século XIV), só um quadro renascentista da parede valia alguns milhares de euros. Como combinar a pobreza do Nazareno, que não tinha onde repousar a cabeça, com as mitras, aos báculos dourados e as estolas e vestes principescas dos atuais prelados? Honestamente, não dá. E o povo, que não é ignorante, mas fino observador, nota esta contradição. Tal aparato nada tem a ver com a Tradição de Jesus e dos Apóstolos.

Segundo alguns jornais, quando o secretário do Conclave quis colocar sobre os ombros do Papa a “mozzetta”, aquela capinha, ricamente adornada, símbolo do poder papal, Francisco simplesmente disse: ”O carnaval acabou; guarde esta roupa”. E apareceu com sua veste branca, como costumava vestir também Dom Helder Câmara, que deixou o palácio colonial de Olinda e foi morar numa meia-água, na igreja das Candeias, na periferia; assim também o fez o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns; sem falar em Dom Pedro Casaldáliga, que vive numa casinha pobre, compartindo o quarto com algum hóspede.

Para mim o gesto mais simples, honesto e popular do Papa Francisco foi o de ir ao hotelzinho onde se hospedara (nunca se hospedava na grande casa central dos jesuítas em Roma) e foi pagar suas contas: 90 Euros por dia. Entrou e pegou ele mesmo suas roupas, arrumou a malinha, cumprimentou os funcionários e foi embora. Que potentado civil, que opulento milionário, que famoso artista faria tal coisa? Seria maliciar a intenção do bispo de Roma querer ver neste gesto, normal para todos nós mortais, uma intenção populista.

Não fazia a mesma coisa quando era cardeal de Buenos Aires, buscando seu jornal, comprando o que ia preparar para comer, indo de ônibus ou de metrô e preferindo se apresentar como “padre Bergoglio”?

Frei Betto cunhou uma expressão de grande verdade: ”a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”. Efetivamente, se alguém sempre pisa em palácios e em suntuosas catedrais, acaba pensando na lógica dos palácios e das catedrais. Por esta razão, no domingo, celebrou missa na capelinha de Santa Ana, dentro do Vaticano, que é considerada a paróquia romana do Papa. E depois foi conversar com os fiéis à porta.

Coisa notável e carregada de conteúdo teológico: não se apresentou como Papa, mas como “bispo de Roma”. Pediu orações não para o Papa emérito Bento XVI, mas para o bispo emérito de Roma, Joseph Ratzinger. Com isso ele retomou a mais primordial tradição da Igreja, a de considerar o bispo de Roma “o primeiro entre os pares”. Pelo fato de ali estarem sepultados Pedro e Paulo, Roma ganhava especial proeminência. Mas esse poder simbólico e espiritual era exercido no estilo da caridade, e não na forma do poder jurídico exercido sobre as demais igrejas, como predominou no segundo milênio. Não me admiraria absolutamente se, como queria João Paulo I, Papa Francisco resolvesse abandonar o Vaticano e fosse morar num lugar simples, com amplo espaço exterior para receber a visita dos fiéis. Os tempos estão maduros para este tipo de revolução nos costumes papais. E que desafio está representando, para os demais prelados da Igreja, viver a simplicidade voluntária e a sobriedade condividida. 

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor – em escritos em rede

sexta-feira, 29 de março de 2013

É possível um exercício do papado diferente



A grave crise moral que atravessa todo o corpo institucional da Igreja fez com que o Conclave elegesse alguém que tenha autoridade e coragem para fazer profundas reformas na Cúria romana e inaugurar uma forma de exercício do poder papal que seja mais conforme ao espírito de Jesus e adequado à nova consciência da humanidade. Francisco é o seu nome.

A figura do papa é talvez o maior símbolo do sagrado no mundo ocidental. As sociedades que pela secularização exilaram o sagrado, a falta de líderes referenciais e a nostalgia da figura do pai como aquele que orienta, cria confiança e mostra caminhos, concentraram na figura do papa estes ancestrais anseios humanos que podiam ser lidos nos rostos dos fiéis na Praça de São Pedro. Por isso é importante analisar o tipo de exercício de poder que o papa Francisco vai exercer. Ele disse em sua primeira fala que vai “presidir na caridade” e não, como os anteriores, com poder judicial sobre todas as igrejas.

Para os cristãos é irrenunciável o ministério de Pedro como aquele que deve “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”, segundo o mandato do Mestre. Roma, onde estão sepultados Pedro e Paulo, foi desde os primórdios referência de unidade, de ortodoxia e de zelo pelas demais igrejas. Esta perspectiva é acolhida também pelas demais igrejas não católicas. A questão toda é a forma como se exerce tal função. O papa Leão Magno (440-461), no vazio do poder imperial, teve que assumir a governança de Roma. Tomou o título de papa e de sumo pontífice, que eram do imperador, incorporou o estilo imperial de poder, monárquico, absoluto e centralizado, com seus símbolos, as vestimentas e o estilo palaciano. Os textos evangélicos atinentes a Pedro, que em Jesus tinham um sentido de serviço e de primazia do amor, foram interpretados como estrito poder jurídico. Tudo culminou com Gregório VII, que, com o seu “Dictatus papae” (a ditadura do papa), arrogou para si os dois poderes, o religioso e o secular. Surgiu a grande Instituição Total, obstáculo ao caminho da liberdade dos cristãos e da sociedade.

A partir daí, o papa emerge como um monarca absoluto com a plenitude de todos os poderes, como o cânon 331 bem o expressa. Levanta a pretensão de subordinar ao seu poder todas as demais igrejas. Esse exercício absolutista foi sempre questionado, especialmente pelos Reformadores. Mas nunca foi amenizado. Como reconhecia João Paulo II, este estilo de exercer a função de Pedro é o maior obstáculo ao ecumenismo e à aceitação pelos cristãos que vêm da cultura moderna dos direitos e da democracia. Para suprir esta falta, os últimos dois papas organizaram uma espetacularização da fé, com viagens e eventos massivos, como a dos jovens a se realizar no Rio.

Esta forma monárquica e absolutista representa um desvio da intenção originária de Jesus, e agora, com Francisco, deve ser repensada à luz da intenção de Jesus. Será um papado pastoral e de serviço à caridade e à unidade, e não mais um papado do poder jurídico absolutista. O Concílio Vaticano II estabeleceu os instrumentos para uma reformulação no governo da Igreja. O Sínodo dos Bispos, que até agora ficou esvaziado e apenas consultivo, quando, na realidade, foi pensado para ser deliberativo. Criar-se-ia também um órgão executivo, que governaria a Igreja com o papa . Criou-se pelo Concílio a colegialidade dos bispos; o que quer dizer que as Conferências Continentais e Nacionais ganhariam mais autonomia para, mantida a comunhão com Roma, permitir um enraizamento da fé nas culturais locais. Representantes do Povo de Deus, cardeais, bispos, clero e leigos, mulheres incluídas, ajudariam a eleger um papa para toda a cristandade. Faz-se urgente uma reforma da Cúria na linha da descentralização. Certamente é o que fará o papa Francisco. Por que o Secretariado para as Religiões não Cristãs não poderia funcionar na Ásia? E o Dicastério da Unidade dos Cristãos em Genebra, perto do Conselho Mundial de Igrejas? O das Missões, em alguma cidade da África? O dos Direitos Humanos e Justiça, na América Latina?

A Igreja Católica poderia se transformar numa instância não autoritária de valores universais, do cuidado pela Terra e pela Vida, que estão sob grave ameaça, contra a cultura do consumo, em favor de uma sobriedade condividida, enfatizando a solidariedade e a cooperação a partir dos últimos, contra a exacerbação da concorrência. A questão central não é mais a Igreja, mas a Humanidade e a Civilização, que podem desparecer. Como a Igreja pode e deve ajudar em sua preservação? Tudo isso é possível e realizável, sem renunciar em nada à substância da fé cristã. Importa que o papa Francisco seja um João XXIII do Terceiro Mundo, um “Papa buono”. Só assim poderá resgatar a credibilidade perdida e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor – em escritos em rede

sábado, 16 de março de 2013

O Papa Francisco, chamado a restaurar a Igreja



Nas redes sociais havia anunciado que o futuro Papa iria se chamar Francisco. E não me enganei. Por que Francisco? Porque São Francisco começou sua conversão ao ouvir o Crucifixo da capelinha de São Damião lhe dizer: “Francisco, vai e restaura a minha casa; olhe que ela está em ruinas” (Boaventura, Legenda Maior II,1).

Francisco tomou ao pé da letra estas palavras e reconstruiu a igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa catedral. Depois entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a “Igreja que Cristo resgatara com seu sangue” (op.cit.). Foi então que começou seu movimento de renovação da Igreja que era presidida pelo Papa mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os hansenianos e de braço com um deles ia pelos caminhos pregando o evangelho em língua popular e não em latim.

É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre, mas apenas leigo. Só no final da vida, quando os Papas proibiram que os leigos pregassem, aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo cargo.

Por que o Card. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A meu ver foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja está em ruinas pela desmoralização dos vários escândalos que atingiram o que ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.

Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres com a doce palavra de “irmãos e irmãs”. Francisco se mostrou obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger: ”O não de Francisco àquele tipo de Igreja não poderia ser mais radical, é o que chamaríamos de protesto profético”(em Zeit Jesu, Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.

Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público. Normalmente os Papas, e Ratizinger principalmente, punham sobre os ombros a mozeta aquela capinha, cheia de brocados e ouro que só os imperadores podiam usar. O Papa Francisco veio simplesmente vestido de branco e com a cruz de bispo. Três pontos são de ressaltar em sua fala e são de grande significação simbólica.

O primeiro: disse que quer “presidir na caridade”. Isso desde a Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo era cobrado. O Papa não deve presidir com como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.

O segundo: deu centralidade ao Povo de Deus, tão realçada pelo Vaticano II e posta de lado pelos dois Papas anteriores em favor da Hierarquia. O Papa Francisco, humildemente, pede que o Povo de Deus reze por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o Povo de Deus. Isto significa: ele está ai para servir e não par ser servido. Pede que o ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda a humanidade onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e irmãs, mas reféns dos mecanismos da economia.

Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do Papa. Não estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e sóbrio, diria, quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus fiéis.
Cabe por último ressaltar que é um Papa que vem do Grande Sul, onde estão os pobres da Terra e onde vivem 60% dos católicos. Com sua experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor – em escritos em rede

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

No princípio está a comunhão, não a solidão



Escrevíamos anteriormente que Deus é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A ortodoxia afirma: há três pessoas e um só Deus. É possível isso? Não seria um absurdo 3=1? Aqui tocamos naquilo que os cristãos subentendem quando dizem “Deus”. É diferente do absoluto do monoteísmo judeu e muçulmano. Sem abandonarmos o monoteísmo, faz-se mister um esclarecimento desta Trindade.

O três seguramente é um número. Mas não como resultado de 1+1+1=3. Se pensarmos assim, matematicamente, então Deus não é três, mas um e único. O número três funciona como um símbolo para sinalizar que sob o nome Deus há comunhão e não solidão, distinções que não se excluem, mas que se incluem que não se opõem, mas se compõem. O número três seria como a auréola que colocamos simbolicamente ao redor da cabeça das pessoas santas. Não é que elas andem por aí com essa auréola. Para nós é o símbolo a sinalizar que estamos diante de figuras santas. Assim ocorre com o número três.

Com o três dizemos que em Deus há distinções. Se não houvesse distinções, reinaria a solidão do um. A palavra Trindade (número três) está no lugar de amor, comunhão e inter-retro-relações. Trindade significa exatamente isso: distinções em Deus, que permitem a troca e a mútua entrega de Pai, Filho e Espírito.

A rigor, como já viu o gênio de Santo Agostinho, não dever-se-ia falar de três pessoas. Cada pessoa divina é única. E os únicos não se somam porque o único não é número. Se disser um em termos de número, então não há como parar: seguem o dois, o três, o quatro e assim indefinidamente. Kant erroneamente entendeu assim, e por isso rejeitava a ideia de Trindade. Portanto, o número três possui valor simbólico e não matemático. O que ele simboliza?

C. G. Jung nos socorre. Ele escreveu longo ensaio sobre o sentido arquetípico-simbólico da Trindade cristã. O três expressa a relação tão íntima e infinita entre as diversas pessoas que se uni-ficam, quer dizer, ficam um, um só Deus.

Mas, se são três únicos, não resultaria no triteísmo, vale dizer, três Deuses em vez de um: triteísmo, em vez de monoteísmo? Isso seria assim, se funcionasse a lógica matemática dos números. Se somamos uma manga +uma manga +uma manga, resultam em três mangas. Mas com a Trindade não é assim, pois estamos diante de outra lógica, a das relações inter-pessoais. Segundo esta lógica, as relações não se somam. Elas se entrelaçam e se incluem, constituindo uma unidade. Assim, pai, mãe e filhos constituem um único jogo de relações, formando uma única família. A família resulta das relações inclusivas entre os membros. Não há pai e mãe sem filho, não há filho sem pai e mãe. Os três se uni-ficam, ficam um, uma única família. Três distintos, mas uma só família, a trindade humana.

Quando falamos de Deus-Trindade entra em ação esta lógica das relações interpessoais e não dos números. Em outras palavras: a natureza íntima de Deus não é solidão, mas comunhão.

Se houvesse um só Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.

O que existe primeiro é a simultaneidade dos três únicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos, sempre se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita resulta a união e a unidade em Deus. Então: três pessoas e um só Deus-comunhão.

Não nos dizem exatamente isso os modernos cosmólogos? O universo é feito de relações e nada existe fora das relações. O universo é a grande metáfora da Trindade: tudo é relação de tudo com tudo: um uni-verso. E nós dentro dele.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor – em escritos em rede 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quarenta anos de Teologia da Libertação e de "Jesus Cristo Libertador”



Entre os dias 7-10 de outubro aconteceu em São Leopoldo, RS, junto ao Instituto Humanitas, da Unisinos dos Jesuitas, a celebração dos 40 anos do surgimento da Teologia da Libertação. Lá estiveram os principais representantes da América Latina, especialmente seu primeiro formulador, o peruano Gustavo Gutiérrez. Curiosamente, no mesmo ano, 1971, sem que um soubesse do outro, tanto Gutiérrez (Peru) quanto Hugo Assman (Bolívia), Juan Luiz Segundo (Uruguai) e eu (Brasil), lançávamos nossos escritos, tidos como fundadores deste tipo de teologia. Não seria a irrupção do Espírito que soprava em nosso continente marcado por tantas opressões?

Eu, para burlar os órgãos de controle e repressão dos militares, publicava todo mês, no ano de 1971, um artigo numa revista para religiosas, “Sponsa Christi” (Esposa de Cristo), com o título Jesus Cristo Libertador. Em março de 1972 reuni os artigos e arrisquei sua publicação em forma de livro. Tive que me esconder por duas semanas, pois a polícia política me procurava. As palavras “libertação” e “libertador” haviam sido banidas e não podiam ser usadas publicamente. Custou muito ao advogado da Editora Vozes, que fora pracinha na Itália, para convencer os agentes da vigilância de que se tratava de um livro de teologia, com muitos rodapés de literatura alemã e que não ameaçava o Estado de Segurança Nacional.

Qual a singularidade do livro (hoje na 21ª edição)? Ele apresentava, fundada numa exegese rigorosa dos evangelhos, uma figura do Jesus como libertador das várias opressões humanas. Com duas delas Jesus se confrontou diretamente: uma, a religiosa, sob a forma do farisaísmo da estrita observância das leis religiosas; a outra, política, a ocupação romana, que implicava reconhecer o imperador como “deus” e assistir à penetração da cultura helenística pagã em Israel.

À opressão religiosa, Jesus contrapôs uma “lei” maior, a do amor incondicional a Deus e ao próximo. Este, para ele, é toda pessoa da qual eu me aproximo, especialmente os pobres e invisíveis, aqueles que socialmente não contam.

Quanto à opressão política, ao invés de submeter-se ao Império dos Césares, Jesus anunciou o Reino de Deus, um delito de lesa-majestade. Este Reino comportava uma revolução absoluta do cosmos, da sociedade, de cada pessoa, e uma redefinição do sentido da vida à luz do Deus, chamado de Abba (quer dizer: paizinho bondoso e cheio de misericórdia), fazendo com que todos se sentissem seus filhos e filhas e irmãos e irmãs uns dos outros.

Jesus agia com a autoridade e a convicção de alguém enviado do Pai para libertar a criação ferida pelas injustiças. Mostrava um poder que aplacava tempestades, curava doentes, ressuscitava mortos e enchia de esperança todo o povo. Algo realmente revolucionário iria acontecer: a irrupção do Reino que é de Deus, mas também dos humanos por seu engajamento.

Nas duas frentes, Jesus criou um conflito que o levou à cruz. Portanto, não morreu na cama cercado de discípulos. Mas executado na cruz, em consequência de sua mensagem e de sua prática. Tudo indicava que sua utopia fora frustrada. Mas eis que aconteceu um evento inaudito: a grama não cresceu sobre sua sepultura. Mulheres anunciaram aos apóstolos que ele havia ressuscitado. A ressurreição não deve ser identificada com a reanimação de seu cadáver, como o de Lázaro. Mas como a irrupção do ser novo, não mais sujeito ao espaço-tempo e à entropia natural da vida. Por isso Jesus atravessava paredes, aparecia e desaparecia. Sua utopia do Reino, como transfiguração de todas as coisas, não podendo realizar-se globalmente, se concretizou em sua pessoa mediante a ressurreição. É o Reino de Deus concretizado nele.

A ressurreição é o dado maior do cristianismo, sem o qual ele não se sustenta. Sem esse evento bem-aventurado, Jesus seria como tantos profetas sacrificados pelos sistemas de opressão. A ressurreição significa a grande libertação e também uma insurreição contra este tipo de mundo. Quem ressuscita não é um César ou um Sumo Sacerdote, mas um crucificado. A ressurreição dá razão aos crucificados da história da justiça e do amor. Ela nos assegura que o algoz não triunfa sobre a vítima. Significa a realização das potencialidades escondidas em cada um de nós: a irrupção do homem novo.

Como entender essa pessoa? Os discípulos lhe atribuíram todos os títulos, Filho do Homem, Profeta, Messias e outros. Por fim, concluíram: humano assim como Jesus só pode ser Deus mesmo. E começaram a chamá-lo de Filho de Deus.

Anunciar um Jesus libertador no contexto de opressão que existia (e ainda persiste) no Brasil e na América Latina era perigoso e subversivo. Não só para a sociedade dominante, mas também para aquele tipo de Igreja que discrimina mulheres e leigos. Por isso, o sonho de Jesus sempre será retomado por aqueles que se recusam aceitar o mundo assim como existe. Talvez seja este o sentido de um livro escrito há 40 anos.

Leonardo Boff,Teólogo, Filósofo, Escritor – em escritos em rede

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Articular inteligência com a miséria



A partir dos anos 50 do século passado foram se formando no Brasil, no seio das massas dos destituídos, movimentos sociais de natureza diversa, mas todos nascidos de um sonho: refundar o Brasil, construindo uma nação autônoma e não mais uma grande empresa agregada e a serviço do capital mundial. Essa força social ganhou dimensões transformadoras quando se deu a aliança entre estes movimentos populares com os intelectuais que, não pertencendo às camadas oprimidas, optaram por elas, assumiram sua causa, apoiaram suas lutas e participaram de seu destino, às vezes trágico, porque marcado por perseguições, prisões, torturas, exílios e mortes, como vem mostrando a Comissão da Verdade.

Com isso a inteligência brasileira começou a pagar uma enorme dívida social para com o povo brasileiro. Mas essa aliança precisa ser sempre refeita e consolidada, especialmente agora, quando um de seus representantes chegou à Presidência e conseguiu avanços político-sociais nunca antes realizados. Sobre ele recai toda a carga do preconceito de classe. Daí a fúria com que vem sendo atacado com o objetivo de aniquilar sua liderança carismática e sua ressonância mundial.

Mais do que nunca, as universidades, onde se formam os intelectuais, não podem mais ser reduzidas a macroaparelhos de reprodução da sociedade discricionária e a fábricas formadoras de quadros para o funcionamento do sistema imperante. Na nossa história pátria foram sempre, também, um laboratório do pensamento contestatário e libertário. Isso constitui sua missão histórica permanente, que deve ser acelerada hoje, dado o agravamento da crise geral no mundo.

O desafio maior é consolidar os avanços sociais e populares alcançados. Por isso, a nova  centralidade reside na construção da sociedade civil a partir da qual os anônimos e invisíveis deixam de ser o que são e passam a ser povo organizado. Sem este tipo de cidadania não existirá a base para um projeto de reinvenção do Brasil com democracia social, popular e cotidiana. Para alcançar esta meta histórica faz-se urgente o encontro da universidade com a sociedade.

Em primeiro lugar, importa criar e consolidar uma aliança entre a inteligência acadêmica com a miséria popular. Todas as universidades, especialmente após a reforma de seu estatuto por Humboldt em 1809 em Berlim, deram ao seu corpo os dois braços que até hoje as constituem: o braço humanístico, que vem das velhas universidades medievais, e o braço técnico-científico, que criou o atual mundo moderno. Elas se tornaram o lugar clássico da problematização da vida, do homem, de seu destino, da cultura e de Deus. As duas culturas, a humanística e a técnico-científica, mais e mais deixam de coexistir e se intercomunicam, no sentido de tomar a sério a sua contribuição na gestação de um país com menos desigualdades e injustiças sociais.

As universidades são urgidas a assumir este desafio: as várias faculdades e institutos hão de buscar um enraizamento orgânico nas bases populares, nas periferias e nos setores ligados diretamente à produção dos meios da vida. Aqui pode se estabelecer uma fecunda troca de saberes, entre o saber popular e o saber acadêmico; pode se elaborar a definição de novas temáticas teóricas nascidas do confronto com a realidade popular e valorizar a riqueza de nosso povo na sua capacidade de encontrar saídas para os seus problemas.
Essa diligência permite um novo tipo de cidadania, baseada na co-cidadania: representantes da sociedade civil e das bases populares bem como da intelectualidade tomam iniciativas por si mesmos e submetem o Estado a um controle democrático, cobrando-lhe os serviços ao bem comum. Nestas iniciativas populares, seja na construção de casas em mutirão, seja na preocupação pela saúde, seja na forma de produção de alimentos, seja na contenção das encostas contra desabamentos e em mil outras frentes, os movimentos sociais sentem necessidade de um saber profissional. É onde a inteligência e a universidade podem e devem entrar, socializando o saber, propondo soluções originais e abrindo perspectivas, às vezes insuspeitadas, para quem é condenado a lutar só para sobreviver.

Deste ir e vir fecundo entre pensamento universitário e saber popular pode surgir um novo tipo de desenvolvimento adequado à cultura local e ao ecossistema regional. A partir desta prática, a universidade pública resgatará seu caráter público, será servidora da sociedade e não apenas daqueles privilegiados que conseguiram entrar nela. E a universidade privada realizará sua função social, já que, em grande parte, é refém dos interesses privados das classes proprietárias e feita chocadeira de sua reprodução social.
Desse casamento entre inteligencia e miséria nascerá um povo libertado das opressões para viver num país mais justo, onde seja menos difícil o amor.
Leonardo Boff, Teólogo, Filósofo e escritor - em escritos em rede