Irmãos e irmãs,
Neste Santo Domingo, celebramos a
“Apresentação do Senhor” no Templo de Jerusalém – que expressa a entrega total
de Cristo, desde os primeiros momentos da sua existência terrena, nas mãos do
Pai. Assim, convida todos os consagrados e consagradas a renovar a sua entrega
nas mãos de Deus e a fazer da própria existência um dom de amor, um testemunho
comprometido da realidade do Reino, ao serviço do projeto salvador de Deus para
homens/mulheres e para o mundo.
A primeira leitura mostra-nos um “mensageiro”
anônimo que anuncia o “Dia do Senhor” – o “dia” em que Deus vai descer ao
encontro do seu Povo para criar uma nova realidade. Nesse dia, Javé vai
eliminar o egoísmo e o pecado, vai purificar o coração do seu Povo, vai
inaugurar o tempo novo da comunhão verdadeira entre Deus e os homens. O
“mensageiro” é uma testemunha fiel e comprometida do inquestionável amor de
Deus. A ação do “mensageiro” é determinante para fazer surgir uma nova
realidade – o “novo céu e a nova terra” onde habitam a verdade, a justiça e a
paz. O Deus que este “mensageiro” anuncia e propõe é um Deus cheio de amor, que
está atento aos dramas que marcam a caminhada humana, que não se conforma com a
apatia, o imobilismo e o comodismo que impedem a descoberta da vida plena.
A figura deste “mensageiro” de Deus, que prepara
o caminho por onde o Senhor vai chegar, recorda-nos a dimensão profética da
vida cristã, na qual se insere Vida Consagrada. Os consagrados – chamados por
Deus a serem mensageiros da sua vida e do seu projeto – são ícones vivos de
Deus no meio do mundo. A Vida Consagrada é interpelação profética;
interpela-nos, convida-nos à conversão, anuncia e testemunha o mundo que há de
vir. Os consagrados, na fidelidade à sua vocação e missão, não podem
conformar-se com uma sociedade tranquilamente adormecida à sombra de valores
politicamente corretos, mas que potenciam uma cultura de escravidão e de morte.
Os consagrados têm de ser testemunhas
desse Deus que ama cada homem e cada mulher para além de toda a medida. Com a
sua palavra, com os seus gestos, com a sua vida, eles têm de dizer a todos –
especialmente aos mais pobres, aos mais débeis, aos marginalizados e
abandonados – que Deus os ama com um amor sem limites e quer oferecer-lhes essa
vida plena que a sociedade nem sempre lhes assegura.
Na segunda leitura Jesus é apresentado como o
sacerdote por excelência que, ao oferecer ao Pai o sacrifício da sua vida, ao
serviço do plano salvador de Deus, fez nascer o Homem Novo, livre da escravidão
do pecado, promovido à categoria de “filho de Deus”. Esta “catequese” convida
os discípulos a olhar para a cruz de Jesus, a interiorizar o seu significado, a
seguir Jesus no dom total da vida, na entrega radical, no serviço simples e
humilde aos irmãos. A Vida Consagrada é uma forma privilegiada de viver e de testemunhar
esta realidade.
Desta forma, aqueles que seguem Jesus Cristo
na Vida Consagrada estão conscientes desta realidade; são alimentados, ao longo
do seu percurso oblativo, por esta confiança; têm por missão dar testemunho
diante dos homens seus irmãos, com luminosa alegria, da intensidade e da
radicalidade do amor de Deus. A morte de Jesus é, naturalmente, o ponto alto
dessa história de amor que Deus quis viver conosco. A cruz “apresenta” ao
mundo, a lógica do amor de Deus, que é um amor total, ilimitado e
incondicional… Naturalmente, os discípulos de Jesus – e também aqueles
discípulos que são chamados a uma especial vocação de consagração – são
convidados a olhar para a cruz de Jesus, a interiorizar o seu significado, a
seguir Jesus no dom total da vida, na entrega radical, no serviço simples e
humilde aos irmãos, significa assumir a mesma atitude de Jesus e solidarizar-se
com aqueles que são crucificados neste mundo, aprender com Jesus a entregar a
vida por amor…
No Evangelho, através das palavras e da
catequese do evangelista Lucas, desenha-se aqui o quadro da “Apresentação de
Jesus” no Templo de Jerusalém, a fim de ser “consagrado” ao Senhor. A
consagração de Cristo recorda-nos que a nossa vida se deve cumprir numa entrega
total nas mãos do Pai, ao serviço do projeto de salvação de Deus para a
humanidade.
Segundo a Lei de Moisés, todos os primogênitos,
tanto dos homens como dos animais, pertenciam a Javé e deviam ser oferecidos a
Javé. De acordo com lei, quarenta dias após o nascimento de uma criança, esta
devia ser apresentada no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação.
Nessa cerimônia, devia ser oferecido um cordeiro de um ano - para as famílias
mais abastadas, ou então duas pombas ou duas rolas - para as famílias de
menores recursos, tradição a que o nosso texto faz referência. É neste contexto
que este passo do Evangelho nos situa.
Na linha da apresentação de todas as
histórias da infância de Jesus, também com esta Lucas pretende mostrar quem é
Jesus e qual a sua missão no mundo. Ao sublinhar repetidamente a fidelidade da
família de Jesus à Lei do Senhor, Lucas quer deixar claro que Jesus, desde o
início da sua caminhada, viveu na fidelidade aos mandamentos e aos projetos do
Pai. Desde o início da sua existência terrena, Ele entregou a sua vida nas mãos
do Pai, numa adesão absoluta ao plano do Pai. A missão de Jesus no mundo passa
por aí, pelo cumprimento rigoroso da vontade e do projeto do Pai.
As duas personagens que acolhem Jesus no
templo, Simeão e Ana, representam o Israel fiel que esperava ansiosamente a sua
libertação e a restauração do reinado de Deus sobre o seu Povo. De Simeão
diz-se que era um homem “justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel”.
As palavras e os gestos de Simeão são particularmente sugestivos… Simeão toma
Jesus nos braços e apresenta-O ao mundo, definindo-O como “a salvação” que Deus
quer oferecer “a todos os povos”, “luz para se revelar às nações e glória de
Israel”. Jesus é, assim, reconhecido pelo Israel fiel como esse Messias
libertador e salvador, a quem Deus enviou – não só ao seu povo, mas a todos os
povos da terra. As palavras que Simeão dirige a Maria, “este menino foi
estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de
contradição; e uma espada trespassará a tua alma”, aludem, provavelmente, à
divisão que a proposta de Jesus provocará em Israel e ao resultado dessa
divisão – o drama da cruz. Ana é também uma figura do Israel pobre e sofredor,
“viúva”, que se manteve fiel a Javé, que espera a salvação de Deus. Depois de
reconhecer em Jesus a salvação anunciada por Deus, ela “falava do menino a
todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”.
Jesus é, assim, apresentado por Lucas como o
Messias libertador, que vai conduzir o seu Povo do domínio da escravidão para o
domínio da liberdade. A apresentação no Templo de um primogênito celebrava precisamente
a libertação do Egito e a passagem da escravidão para a liberdade.
Nas figuras de Ana e Simeão, desse Israel
antigo e fiel, esperançoso nas promessas de Deus, vemos um mundo que crê no
Deus da Aliança e da Paz e, sobretudo, na fidelidade de Deus às suas promessas.
O texto termina com uma referência ao resto
da infância de Jesus e ao crescimento do menino em “sabedoria” e “graça”.
Trata-se de atributos que lhe vêm do Pai e que atestam, portanto, a sua
divindade. Jesus é o Deus que vem ao encontro dos homens com uma missão que lhe
foi confiada pelo Pai. O objetivo de Jesus é cumprir integralmente o projeto do
Pai… E esse projeto passa por levar os homens da escravidão para a liberdade e
em apresentar a proposta de salvação de Deus a todos os povos da terra, mesmo
àqueles que não pertencem tradicionalmente à comunidade do Povo de Deus.
A
Festa da “Apresentação do Senhor” coincide com a celebração do Dia da Vida
Consagrada. Ao olhar para o mistério da consagração aqui expresso, os
consagrados são convidados a revisitar os fundamentos da sua consagração,
vivida no seguimento de Jesus, por amor do Reino. Poderíamos dizer que se
celebra hoje em toda a Igreja um singular “ofertório”, no qual os homens e as
mulheres consagradas renovam espiritualmente o dom de si. Agindo desta forma,
ajudam as comunidades eclesiais a crescer na dimensão oblativa que as constitui
intimamente, as edifica e as estimula a testemunhar Jesus pelos caminhos do
mundo. Hoje, os consagrados – discípulos que acolheram Jesus como a sua luz e
que aceitaram segui-l’O – têm a responsabilidade de O apresentar ao mundo e de
O tornar uma proposta questionadora, libertadora, iluminadora, salvadora, para nossos
irmãos e irmãs. É preciso que os consagrados sejam luz e conforto para cada
pessoa, velas acesas que ardem com o próprio amor de Cristo, luz que ilumina as
sombras do mundo e que profeticamente anuncia a aurora de uma nova realidade, a
exemplo, de Simeão e Ana e de todos os Santos e Santas de Deus, sejamos consagrados, livres para
amar, livres para servir. Assim seja! Amém.
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