Neste
Santo Domingo, somo convidados ao verdadeiro culto, do culto que devemos
prestar a Deus. A Deus não interessam grandes manifestações religiosas ou ritos
externos, mas uma atitude permanente de entrega nas suas mãos, de disponibilidade
para os seus projetos, de acolhimento generoso dos seus desafios, de
generosidade para doarmos a nossa vida em benefício aos nossos irmãos e irmãs.
A
primeira leitura apresenta-nos o exemplo de uma mulher pobre de Sarepta, que,
apesar da sua pobreza e necessidade, está disponível para acolher os apelos, os
desafios e os dons de Deus.
Elias
chega a Sarepta e, correspondendo à indicação de Javé, dirige-se a uma viúva da
cidade. Pede-lhe água para beber e um pedaço de pão para comer. Nesse tempo
dramático de fome e de seca, a mulher apenas tem um punhado de farinha e um
pouco de azeite, que se prepara para comer com o filho, antes de se deitar à
espera da morte; mas prepara o pão para Elias… E, por ação de Deus, durante
todo o tempo que Elias permaneceu, nem a farinha se acabou na panela, nem o
azeite faltou. O pão e o azeite que a mulher
reparte com o profeta multiplicam-se milagrosamente.
O
fato mostra que, quando alguém é capaz de sair do seu egoísmo e tem
disponibilidade para partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam
para todos e ainda sobram. A história dessa viúva que reparte com o profeta os
poucos alimentos que tem, garante-nos que a generosidade, a partilha e a
solidariedade não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em
abundância.
A
segunda leitura oferece-nos o exemplo de Cristo, o sumo-sacerdote que entregou
a sua vida em favor dos homens. Ele mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o
dom perfeito que Deus quer e que espera de cada um dos seus filhos. Mais do que
dinheiro ou outros bens materiais, Deus espera de nós o dom da nossa vida, ao
serviço desse projeto de salvação que Ele tem para homens e mulheres e para o
mundo.
No
final da sua caminhada terrena, Cristo, o sacerdote perfeito, entrou no
verdadeiro santuário que é o céu – a própria realidade de Deus, a comunhão com
Deus. Vivendo em comunhão com o Pai, Ele continua a interceder e a dispor o
coração do Pai em favor de homens e mulheres. E quando Cristo voltar a manifestar-Se,
no final dos tempos - parusia, não será nem para oferecer um novo sacrifício,
nem para condenar o homem; mas será para oferecer a salvação definitiva àqueles
que Ele, com o seu sacrifício, libertou do pecado.
No
Evangelho, Marcos mostra através do exemplo de outra mulher pobre, de outra
viúva, qual é o verdadeiro culto que Deus quer dos seus filhos: que eles sejam
capazes de Lhe oferecer tudo, numa completa doação, numa pobreza humilde e
generosa, que é sempre fecunda, num despojamento de si que brota de um amor sem
limites e sem condições. Só os pobres, isto é, aqueles que não têm o coração
cheio de si próprios, são capazes de oferecer a Deus o culto verdadeiro que Ele
espera.
Assim,
o relato de Marcos compõe-se, de duas partes. Na primeira parte, Jesus faz
incidir a atenção dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei.
Aparentemente, os doutores da Lei são figuras intocáveis da comunidade, com uma
atitude religiosa irrepreensível. São estimados, admirados e adulados pelo
povo, que os tem em alto conceito.
Contudo,
o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências, mas penetra na
realidade das coisas… Uma análise mais cuidadosa mostra que esses doutores da
Lei são hipócritas e incoerentes: fazem as coisas, não por convicção, mas para
serem considerados e admirados pelo povo; procuram os primeiros lugares,
preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos outros, exibem uma
devoção de fachada, fazem do cumprimento dos ritos e regras da Lei um espetáculo
para os outros aplaudirem. A sua vida é, portanto, um imenso repertório de
mentira, de incoerência, de hipocrisia… Como se isso não bastasse, estes
doutores da Lei aproveitam-se, frequentemente, da sua posição e da confiança
que inspiram – como intérpretes autorizados da Lei de Deus – para explorar os
mais pobres, aqueles que são os preferidos de Deus; servem-se da religião para
satisfazer a sua avareza, não têm escrúpulos em aproveitar-se boa-fé das
pessoas para aumentar os seus proveitos; exploram as viúvas, que lhes confiam a
administração dos próprios bens, alinham em esquemas de corrupção e de
exploração…
Os
doutores da Lei, com os seus comportamentos hipócritas, mostram que os ritos
externos, os gestos teatrais, o cumprimento das regras religiosamente corretas
não chegam para aproximar-nos de Deus e da santidade de Deus. Ao olhar para a
atitude dos doutores da Lei, os discípulos de Jesus têm de estar conscientes de
que este não é o comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da
sua família.
Na
segunda parte do relato, Jesus convida os discípulos a perceber a essência do
verdadeiro culto, da verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o
quadro dos doutores da Lei, Jesus aponta aos discípulos a figura de uma pobre
viúva, que se aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo,
onde se depositavam as ofertas para o tesouro do Templo. A mulher deposita duas
simples moedas – eram as menores e insignificantes das moedas judaicas;
contudo, aquela quantia insignificante era tudo o que a mulher possuía.
Ninguém,
exceto Jesus, repara nela ou manifesta admiração pelo seu gesto. Apenas Jesus –
que lê os fatos com os olhos de Deus e sabe ver para além das aparências –
percebe naquelas duas insignificantes moedas oferecidas a marca de um dom
total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e sem medida.
O
encontro com Deus, o culto que Deus quer passa por gestos simples e humildes,
que podem passar completamente despercebidos, mas que são sinceros,
verdadeiros, e expressam a entrega generosa e o compromisso total.
O
verdadeiro cristão não é o que cultiva gestos teatrais, que impressionam as multidões
e que são aplaudidos; mas é o que aceita despojar-se de tudo, prescindir dos
seus interesses e projetos pessoais, para se entregar completa e gratuitamente
nas mãos de Deus, com humildade, generosidade, total confiança, amor
verdadeiro. É este o exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o
culto verdadeiro que devemos prestar a Deus, oferecendo tudo o que o temos a
Deus, assim como a pobre viúva
– que deu tudo o que possuía para viver. Assim seja! Amém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Palavra em mim agradece, pois seu comentário é muito importante para a nossa caminhada dialógica.
Obrigado!