Neste
Santo Domingo Deus apresenta-nos o
projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher: formar uma comunidade de
amor, estável e indissolúvel, que os ajude mutuamente a realizarem-se e a serem
felizes. Esse amor, feito doação e entrega, será para o mundo um reflexo do
amor de Deus.
A
primeira leitura diz-nos que Deus criou o homem e a mulher para se completarem,
para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão
“uma só carne”. Ser “uma só carne” implica viverem em comunhão total um com o
outro, dando-se um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um
amor que é mais forte do que qualquer outro vínculo.
Na
segunda leitura lembra-nos a “qualidade” do amor de Deus pelos homens… Deus
amou de tal forma os homens que enviou ao mundo o seu Filho único “em proveito
de todos”. Jesus, o Filho, solidarizou-Se com os homens, partilhou a debilidade
dos homens e, cumprindo o projeto do Pai, aceitou morrer na cruz para dizer aos
homens que a vida verdadeira está no amor que se dá até às últimas
consequências.
Jesus
aceitou despojar-se das suas prerrogativas divinas e fazer-se “por um pouco,
inferior aos anjos” a fim de que, pelo dom da sua vida até à morte, se
cumprisse o projeto salvador do Pai para todos. Morrendo por amor, Jesus
ensinou como é que eles devem viver, qual o caminho que eles devem percorrer, a
fim de chegarem à plenitude da vida, à felicidade sem fim. Portanto, ao assumir
a natureza humana, ao fazer-Se solidário com homens e mulheres, ao fazer-Se
irmão, Cristo, aquele que santifica, inseriu a humanidade, os que são
santificados na órbita de Deus e mostrou-lhes o caminho, que a morte não é o
fim da linha para quem vive na entrega a Deus e na doação aos irmãos.
No
Evangelho, Marcos mostra-nos Jesus, confrontado com a Lei judaica do divórcio,
reafirma o projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher: eles foram
chamados a formar uma comunidade estável e indissolúvel de amor, de partilha e
de doação. A separação não está prevista no projeto ideal de Deus, pois, Deus
não considera um amor que não seja total e duradouro. Só o amor eterno,
expresso num compromisso indissolúvel, respeita o projeto primordial de Deus
para o homem e para a mulher.
Diante
da questão posta pelos fariseus: “pode um homem repudiar a sua mulher?” - Jesus
começa por recordar-lhes o estado da questão na perspectiva da Lei: “que vos
ordenou Moisés?”. Efetivamente, a Lei permite o divórcio: “Moisés permitiu que
se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher”; contudo,
essa condescendência da Lei não resulta do projeto de Deus para o homem e para
a mulher, mas é o resultado da “dureza do coração” dos homens. As prescrições
de Moisés não definem o quadro ideal do amor do homem e da mulher, mas apenas
regulam o compromisso matrimonial, tendo em conta a natureza humana.
Contrapondo
com a Lei, Jesus vai apresentar o projeto primordial de Deus para o amor do
homem e da mulher. Jesus explica que, no projeto original de Deus, o homem e a
mulher foram criados um para o outro, para se completarem, para se ajudarem,
para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”.
Ser “uma só carne” implica viverem em comunhão total um com o outro, dando-se
um ao outro, partilhando a vida um com o outro, unidos por um amor que é mais
forte do que qualquer outro vínculo.
A
perspectiva de Jesus acerca da questão é a seguinte: nessa nova realidade que
Deus quer propor ao homem - o Reino de Deus - chegou o momento de abandonar a
facilidade e de apontar para um patamar mais alto. Ora, no que diz respeito ao
matrimónio, o patamar mais alto é o projeto inicial de Deus para o homem e para
a mulher, que previa um compromisso de amor estável e duradouro.
Portanto,
Jesus reitera que a relação entre o homem e a mulher se deve enquadrar no projeto
inicial de Deus e não nas facilidades concedidas pela Lei de Moisés. A
perspectiva de Deus é que marido e mulher, unidos pelo amor, formem uma
comunidade de vida estável. O divórcio não entra nesse projeto. Marido e
esposa, em igualdade de circunstâncias, são responsáveis pela edificação da
comunidade familiar e por evitar o fracasso do amor.
O
nosso texto termina com uma cena em que Jesus acolhe as crianças, defende-as e
abençoa-as. As crianças são, aqui, uma espécie de contraponto ao orgulho e
arrogância com que os fariseus se apresentam a Jesus, bem como à dificuldade
que os discípulos revelaram, nas cenas precedentes, para acolher a lógica do
Reino. As crianças são simples, transparentes, sem calculismos; não têm
prestígio ou privilégios a defender; entregam-se confiadamente nos braços do
pai e dele esperam tudo, com amor. Por isso, as crianças são o modelo do
discípulo. O Reino de Deus é daqueles que, como as crianças, vivem com
sinceridade e verdade, sem se preocuparem com a defesa dos seus interesses
egoístas ou dos seus privilégios, acolhendo as propostas de Deus com
simplicidade e amor. Quem não é “criança”, isto é, quem percorre caminhos
tortuosos e calculista, quem não renuncia ao orgulho e autossuficiência, quem
despreza a lógica de Deus e só conta com a lógica do mundo, também na questão
do casamento e do divórcio, quem conduz a própria vida ao sabor de interesses e
valores efêmeros, quem não aceita questionar os próprios raciocínios e preconceitos,
não pode integrar a comunidade do Reino – fazer parte do Amor de Deus pleno,
que une homem e mulher. Assim seja! Amém.
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