Irmãos e irmãs,
Este Santo Domingo
revela-nos a preocupação de Deus que alcancemos a vida verdadeira e aponta o
caminho que é preciso seguir para atingir essa meta. De acordo com a Palavra de
Deus que nos é proposta, homens e mulheres chegam à vida plena, aderindo a
Jesus e acolhendo a proposta de salvação que Ele nos veio apresentar.
A primeira leitura
afirma que, mesmo nos momentos mais dramáticos da caminhada histórica de
Israel, quando o Povo parecia privado definitivamente de luz e de liberdade,
Deus estava lá, preocupando-se em libertar o seu Povo e em conduzi-lo pela mão,
com amor de pai, ao encontro da liberdade e da vida plena.
O cego e o coxo são
figuras tradicionais ligadas ao tema do Êxodo, onde relembram a situação de
necessidade e de carência em que os exilados jazem e, ao mesmo tempo, evocam a
ação extraordinária de Deus no sentido de libertar o seu Povo dessa carência e
dessa necessidade. Na imagem da mulher grávida e na da mulher que deu à luz, o
profeta representa a dor e o sofrimento, mas também a fecundidade, a alegria, a
esperança num futuro novo e cheio de vida. Javé vai oferecer ao seu Povo vida
abundante e fecunda: "conduzi-Los-ei às torrentes de água".
A segunda leitura
apresenta Jesus como o sumo-sacerdote que o Pai chamou e enviou ao mundo a fim
de conduzir os homens à comunhão com Deus. Com esta apresentação, o autor deste
texto sugere, antes de mais, o amor de Deus pelo seu Povo; e, em segundo lugar,
pede aos crentes que "acreditem" em Jesus - isto é, que escutem
atentamente as propostas que Ele veio fazer, que as acolham no coração e que as
transformem em gestos concretos de vida.
No universo religioso
judaico, o sumo-sacerdote ocupava o lugar primeiro na hierarquia do clero do
Templo e, de alguma forma, presidia à instituição sacerdotal. Era ele o único a
entrar, uma vez no ano, no lugar mais sagrado do Templo, no solene "Dia
das Expiações", com o sangue de um animal imolado, para aspergir o
"propiciatório" e conseguir o perdão de Deus para os pecados do Povo.
Dessa forma, o sumo-sacerdote tornava-se o intermediário por excelência da
relação entre os homens e Deus.
Na perspectiva do autor
da Carta aos Hebreus, Jesus é o sumo-sacerdote por excelência, porque Ele foi
chamado e destinado por Deus a esta missão; o fato de ser Filho de Deus dá ao
seu sacerdócio uma categoria, uma dignidade e uma qualidade suprema, uma vez
que o coloca em contato pessoal e íntimo com o Pai, dando dessa forma uma
expressão mais completa a essa mediação que Ele é chamado a realizar entre Deus
e a humanidade. De fato, Ele veio ao nosso encontro, mostrou-nos o amor do Pai,
convidou-nos a eliminar o egoísmo e o pecado que nos afastavam da comunhão com
Deus, chamou-nos a integrar a família de Deus e ensinou-nos o que fazer para
sermos filhos de Deus.
No Evangelho, Marcos
propõe-nos o caminho de Deus para libertar-nos das trevas e para fazê-lo nascer
para a luz. Como Bartimeu, o cego, somos convidados a acolher a proposta que
Jesus lhes veio trazer, a deixar decididamente a vida velha e a seguir Jesus no
caminho do amor e do dom da vida. Dessa forma, garante-nos Marcos, poderemos
passar da escravidão à liberdade, da morte à vida.
É natural que Jesus
tenha encontrado, quando saía de Jericó, um cego que mendigava junto da
estrada... No entanto, à volta desse acontecimento, Marcos construiu uma
catequese para nós. Quem é, na catequese de Marcos, este "cego" que
Jesus encontra ao longo do caminho, quando se dirige para Jerusalém? Ele
representa todos esses a quem a teologia oficial considerava pecadores,
malditos, impuros, marginais, longe de Deus e da sua proposta de salvação.
O cego da nossa
história está sentado à beira do caminho, provavelmente a pedir esmola. O estar
sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz
e da liberdade e está conformado com a sua triste situação, sabendo que, por si
só, é incapaz de sair dela. O pedir esmola indica a situação de escravidão e de
dependência em que o homem se encontra.
Contudo, a passagem de
Jesus de Nazaré dá ao cego a consciência da sua situação de miséria e de
escravidão. Então, Bartimeu percebe o sem sentido da sua situação e sente a
vontade de uma outra experiência. A passagem de Jesus na vida de alguém é
sempre um momento de tomada de consciência, de questionamento, de desafio, que
leva a pôr em causa a vida velha e a sentir o imperativo de ir mais além ... No
entanto, Bartimeu está consciente da sua debilidade e sente que, sem a ajuda de
Jesus, continuará envolvido pelas trevas da dependência, da escravidão ... Por
isso, pede: "Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim".
Portanto, Bartimeu vê em Jesus esse Messias libertador, que havia de vir não só
para salvar Israel dos opressores, mas também para dar vida em plenitude a cada
membro do Povo de Deus.
Antes de referir a
intervenção de Jesus, Marcos dá conta da reação dos que estão à volta de Jesus:
repreendiam o cego e queriam fazê-lo calar. Quando alguém encontra Jesus e
resolve deixar a vida antiga para aderir ao Reino que Jesus veio propor,
encontra sempre resistências. Estes que repreendem e mandam calar o cego representam,
portanto, todos aqueles que colocam obstáculos a quem quer deixar a sua
situação de miséria e de escravidão para aderir à proposta libertadora que
Cristo faz. No entanto, a oposição não só não desarma o cego, como o leva a
gritar ainda mais forte: "filho de David, tem misericórdia de mim"...
A incompreensão ou a oposição dos homens nunca fazem desistir aquele que viu
Jesus passar e que viu n'Ele uma proposta de vida e de liberdade.
Jesus parou e mandou
chamar o cego. O chamamento é sempre, nestes casos, a tornar-se discípulo, a
seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Em resposta, o cego atirou
fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. O deixar fora a capa significa,
portanto, o deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um
corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação, com
tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao
lado de Jesus.
Jesus perguntou ao
cego: "que queres que te faça?". Jesus responde a Bartimeu:
"vai, a tua fé te salvou". A fé não é a simples adesão a determinadas
verdades abstratas, é a adesão a Jesus e à sua proposta de salvação. Por isso,
Marcos termina a sua história dizendo que o cego recuperou a vista e seguiu
Jesus - isto é, fez-se discípulo de Jesus. Ao aderir a Jesus e à sua proposta
de salvação, ao aceitar seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida, Bartimeu
encontrou a salvação: deixou a vida da escuridão, da escravidão, da dependência
em que estava e nasceu para essa vida verdadeira e eterna que, através de Jesus,
Deus oferece a homens e mulheres. Bartimeu transforma-se e torna-se o protótipo
do verdadeiro discípulo ... Destinatário privilegiado da proposta de salvação
que Jesus traz, ele proclama sem hesitações a sua fé, invoca a ajuda e a
misericórdia de Jesus, acolhe sem hesitações o chamamento que lhe é feito,
liberta-se da vida velha e, com alegria, decisão e entusiasmo, aceita, sem
condições, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. É com o Bartimeu
que os discípulos de Jesus são convidados a identificar-se, para sermos guiados
por Cristo - Jesus "filho de Davi", a luz de nossa fé, curando de nossas cegueiras. Assim seja! Amém.
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