Irmãos
e irmãs,
A
Palavra de Deus afirma, neste Santo Domingo, essencialmente, que o nosso Deus
está sempre presente ao longo da nossa caminhada pela história e que só Ele nos
oferece um horizonte de vida eterna, de realização plena, de felicidade perfeita.
A
primeira leitura mostra como Javé acompanhou a caminhada dos hebreus pelo
deserto do Sinai e como, nos momentos de crise, respondeu às necessidades do
seu Povo. O quadro revela a pedagogia de Deus e dá-nos a chave para entender a
lógica de Deus, manifestada em cada passo da história da salvação. Este
episódio de hoje reproduz as vicissitudes e as dificuldades da caminhada
histórica do Povo de Deus. Desde que o Povo fugiu do Egito, Javé manifestou, de
mil formas, o seu amor por Israel… No episódio da passagem do mar, da água amarga
transformada em água doce, do maná e das codornizes, Deus mostrou o seu empenho
em conduzir o seu Povo para a liberdade e em transformar a experiência de morte
numa experiência de vida… Javé mostrou, sem margem para dúvidas, estar
empenhado na salvação do seu Povo. Depois dessas experiências, Israel já não
devia ter qualquer dúvida sobre a vontade salvadora de Deus e sobre o seu projeto
de libertação.
No
entanto, não é isso que acontece. Diante das dificuldades da caminhada, o Povo
esquece tudo o que Javé já fez e manifesta as suas dúvidas sobre os objetivos
de Deus. A falta de confiança em Deus - “o Senhor está ou não no meio de nós?”
- conduz ao desespero e à revolta. O Povo
entra em contenda com Moisés e desafia Deus a clarificar, através de um gesto
espetacular. Acusam Deus de ter um projeto de morte, apesar de Ele, tantas
vezes, ter demonstrado que o seu projeto é de vida e de liberdade. Afinal,
depois de tantas provas, Israel ainda não fez uma verdadeira experiência de fé:
não aprendeu a confiar em Deus e a entregar-se nas suas mãos.
Deus
reage à ingratidão e à falta de confiança do seu Povo com “paciência divina”,
Deus responde mais uma vez às necessidades do seu Povo e oferece-lhe a água que
dá vida. Deus responde provando que está, efetivamente, no meio do seu Povo. O
Senhor é o Deus que está sempre presente na caminhada histórica do seu Povo
oferecendo-lhe, em cada passo da caminhada, a vida e a salvação.
A
caminhada dos hebreus pelo deserto é, um pouco, o espelho da nossa caminhada
pela vida. Todos nós fazemos, todos os dias, a experiência de um Deus
libertador e salvador, que está presente ao nosso lado, que nos estende a mão e
nos faz passar da escravidão para a liberdade.
A
segunda leitura mostra-nos também que Deus acompanha o seu Povo em marcha pela
história; e, apesar do pecado e da infidelidade, insiste em oferecer ao seu
Povo – de forma gratuita e incondicional – a salvação. Paulo aproveita para
dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar
todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Paulo nos propõe, que
pela ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar”
todo o homem. Javé se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade,
da misericórdia e do amor. Assim, Paulo, ao falar do homem justificado, está a
falar do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia
de Deus, recebe um veredito de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo
totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que acolha,
com humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e que se
entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é
uma nova criatura: é o homem ressuscitado para a vida nova, que vive do
Espírito, que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo.
Desta
forma, há frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus: a
paz, a esperança e o amor de Deus. O cristão é, fundamentalmente, alguém a quem
Deus ama. A prova desse amor está em Jesus de Nazaré, o Filho amado a quem Deus
“entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”. E este texto
convida-nos a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu de homens e
mulheres e, que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de
fazer caminho conosco. Apesar do nosso egoísmo, orgulho, autossuficiência e do
pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de um
amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que,
uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena. A vinda de Jesus Cristo ao nosso
encontro é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos
abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade
da nossa existência, a fim de nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e
herdeiros da vida em plenitude.
O
Evangelho deste domingo situa-nos junto de um poço, na cidade samaritana de
Sicar. A cena passa-se à volta do “poço de Jacó”. O “poço” acaba por
transformar-se, na tradição judaica, num elemento mítico. Sintetiza os poços
abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto;
mas, sobretudo, torna-se figura da Lei, do poço da Lei brota a água viva que
mata a sede de vida do Povo de Deus, que a tradição judaica considerava
observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés. No centro
desta cena, está o “poço de Jacó”. À volta do “poço” movimentam-se as
personagens principais: Jesus e a samaritana.
A
mulher aqui apresentada, sem nome próprio, representa a Samaria, que procura
desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus
vai ao encontro da “mulher”. Haverá neste episódio uma referência ao
Deus/esposo que vai ao encontro do povo/esposa infiel para lhe fazer descobrir
o amor verdadeiro.
O
“poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se consubstanciava
a experiência religiosa dos samaritanos. Era nesse “poço” que os samaritanos
procuravam a água da vida plena. No entanto: o “poço” da Lei não correspondia à
sede de vida daqueles que o procuravam. Os próprios samaritanos tinham
reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e haviam buscado a vida plena
noutras propostas religiosas.
Estamos,
pois, diante de um quadro que representa a busca da vida plena. Onde encontrar
essa vida? Na Lei? Noutros deuses? A mulher/Samaria dá conta da falência dessas
“ofertas” de vida: elas podem “matar a sede” por curtos instantes; mas quem
procura a resposta para a sua realização plena nessas propostas voltará a ter
sede.
É
aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se
pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à mulher/Samaria uma “água viva”, que
matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o “novo
poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua
sede.
E
a água que Jesus tem para oferecer, é a “água do Espírito” que, no Evangelho de
João, é o grande dom de Jesus. E quando Jesus se apresenta como a “água viva”
que matará a sede, João tem o cuidado de explicar que Ele se referia ao
Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele. Esse Espírito, uma vez
acolhido no coração, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os
outros.
Como
é que a mulher/Samaria responde ao dom de Jesus? Inicialmente, ela fica
confusa. Parece disposta a remediar a situação de falência de felicidade que
caracteriza a sua vida, mas ainda não sabe bem como: essa vida plena que Jesus
está a propor-lhe significa que a Samaria deve abandonar a sua especificidade
religiosa e ceder às pretensões religiosas dos judeus, para quem o verdadeiro
encontro com Deus só pode acontecer no Templo. No entanto, Jesus nega que se
trate de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é
no Templo de pedra que Deus está… O que se trata é de acolher a novidade do
próprio Jesus, aderir a Ele e aceitar a sua proposta de vida, isto é, aceitar o
Espírito que Ele quer comunicar a todos. A única coisa que passa a contar é a
vida do Espírito que encherá o coração de todos, que a todos ensinará o amor a
Deus e aos outros e que fará de todos – sem distinção de raças ou de
perspectivas religiosas – uma família de irmãos.
A
mulher/Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro, e correndo a
anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe faz. O texto refere,
ainda, a adesão entusiástica de todos os que tomam conhecimento da proposta de
Jesus e a “confissão da fé”: Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” –
isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva. Assim, a
samaritana, depois de encontrar o “salvador do mundo” que traz a água que mata
a sede de felicidade, não se fechou em casa a gozar a sua descoberta; mas
partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha
encontrado.
O
nosso texto define, portanto, a missão de Jesus: comunicar ao homem o Espírito
que dá vida. O Espírito que Jesus tem para oferecer desenvolve e fecunda o
coração, dando-lhe a capacidade de amar sem medida. Eleva, assim, aqueles que
buscam a vida plena e definitiva à categoria de filhos de Deus que fazem as
obras de Deus. Do dom de Jesus nasce a nova comunidade. A presença do Espírito
acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que
continua presente e atuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que, dia
a dia, vamos percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até
chegarmos à vida plena. É esse caminho que a Palavra de Deus nos convida a percorrer,
neste tempo de Quaresma. Portanto, quem acolhe o dom de Deus e aceita Jesus
como “o salvador do mundo” torna-se uma pessoa nova, que vive do Espírito e que
caminha ao encontro da vida plena e definitiva.
A
afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a
água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade. Essa “água viva” de que Jesus fala faz-nos
pensar no batismo. Para cada um de nós, esse foi o começo de uma caminhada com
Jesus… Nessa altura acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que
faz de nós “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e
definitiva. A Palavra de Deus deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona o
seu Povo em caminhada pela história… Ele está ao nosso lado, em cada passo da caminhada,
para nos oferecer gratuitamente e com amor a água que sacia a nossa sede de vida
e de felicidade. Através do “sinal” da água, revela-nos a água viva da tua
presença na Eucaristia e em sua ação criadora e vivificadora faz com que tenhamos
sede de Te conhecer. Assim seja! Amém.
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