Irmãos
e irmãs,
Este
Santo Domingo convida-nos a prescindir da “sabedoria do mundo” e a escolher a
“sabedoria de Deus”. Só a “sabedoria de Deus” possibilitará ao homem o acesso à
vida plena, à felicidade sem fim. Em Jesus, encontramos a verdadeira fonte de sabedoria,
capaz de conduzir-nos ao Pai, com os valores do Reino, mostrando que o projeto
do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio.
A
primeira leitura do livro da Sabedoria alerta que escolher a “sabedoria de
Deus” provocará o ódio do mundo. Contudo, o sofrimento não pode desanimar os
que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da
sua coerência de vida. Pois, a vida dos “justos” que assumiram os valores de
Deus e que, mesmo no meio da hostilidade geral, procuram preservar os seus
valores e viver de forma coerente e honesta com a sua fé, constitui um incómodo
e uma dura interpelação para os “ímpios”. Então, a fidelidade do justo será
recompensada e que a sua vida desembocará nessa vida plena e definitiva que
Deus reserva para aqueles que seguem os seus caminhos.
Na
segunda leitura São Tiago exorta-nos a vivermos de acordo com a “sabedoria de
Deus”, pois, só ela pode conduzir-nos ao encontro da vida plena. Pelo
contrário, uma vida conduzida segundo os critérios da “sabedoria do mundo” irá
gerar violência, divisões, conflitos, infelicidade, morte.
A
“sabedoria do mundo” destrói a vida da própria pessoa e por impedir a comunhão
dos irmãos é incompatível com as exigências da adesão a Cristo. Os conflitos e
discórdias que ocorrem em algumas comunidades cristãs resultam do fato de ainda
não terem interiorizado a proposta de Cristo. Em lugar de fazerem da sua vida,
como Cristo, um dom de amor aos irmãos, e de traduzirem esse amor em gestos
concretos de partilha, de serviço, de solidariedade, de fraternidade, vive
fechado no seu egoísmo e no seu orgulho. Naturalmente, a sua oração não é
escutada por Deus.
Já,
a “sabedoria de Deus” é “pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia
e boas obras”. Assim, propõe-se um caminho de perfeição, de realização total,
de vida plena. Se o cristão quer viver em paz, em comunhão com Deus, deve acolher
a “sabedoria de Deus” e atuar de acordo com ela em cada passo da sua
existência.
No
Evangelho, São Marcos apresenta-nos uma história de confronto entre a
“sabedoria de Deus” e a “sabedoria do mundo”. Jesus, imbuído da lógica de Deus,
está disposto a aceitar o projeto do Pai e a fazer da sua vida um dom de amor
aos homens; os discípulos, imbuídos da lógica do mundo, não têm dificuldade em
entender essa opção e em comprometer-se com esse projeto. Jesus avisa-os,
contudo, de que só há lugar na comunidade cristã para quem escuta os desafios
de Deus e aceita fazer da vida um serviço aos irmãos, particularmente aos
humildes, aos pequenos, aos pobres.
Na
primeira parte, Jesus anuncia a sua paixão, morte e ressurreição. As palavras
de Jesus denotam tranquilidade e uma serena aceitação desses fatos que irão
concretizar-se num futuro próximo. Jesus recebeu do Pai a missão de propor a
humanidade um caminho de realização plena, de felicidade sem fim; e Ele vai
fazê-lo, mesmo que isso passe pela cruz. A serenidade de Jesus vem-Lhe da total
aceitação e da absoluta conformidade com os projetos do Pai.
Os
discípulos não entendem a linguagem de Jesus e que têm medo de O interrogar. Para
a mentalidade desses discípulos, não aceitam que o caminho do Messias tenha de
passar pela cruz e pelo dom da vida. A morte, na perspectiva dos discípulos,
não pode ser caminho para a vitória. Assim, discordam do caminho que Jesus
escolheu seguir, pois, acham que o caminho da cruz é um caminho de fracasso.
Na
segunda parte, Jesus ensina aos discípulos a lógica do Reino: o maior, é aquele
que se faz servo de todos. A cena começa com uma pergunta de Jesus: “Que
discutíeis pelo caminho?” – os discípulos haviam discutido, pelo caminho,
“sobre qual deles era o maior”. Os discípulos estavam profundamente imbuídos da
lógica hierárquica que se faziam nas assembleias, sinagoga, banquetes. Uma vez
que se aproximava o triunfo do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave
na cadeia de poder do reino messiânico, convinha ter o quadro hierárquico
claro. Pois, apesar do que Jesus lhes tinha dito pouco antes acerca do seu
caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos
materiais e a sua lógica humana.
Jesus
encara o problema de frente e com toda a clareza, pois, o que está posto afeta
a essência da sua proposta. Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza,
com uns no cimo e outros na base. Na comunidade de Jesus, só é grande aquele
que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos. Dessa forma, Jesus derruba
por terra qualquer pretensão de poder, de domínio, de grandeza, na comunidade
do Reino. O discípulo que raciocinar em termos de poder e de grandeza, isto é,
segundo a lógica do mundo está a subverter a ordem do Reino.
Jesus
completa a orientação aos discípulos com um gesto. Toma uma criança, coloca-a
no meio do grupo, abraça-a e convida os discípulos a acolherem as “crianças”,
pois, quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai. Naquela
sociedade, as crianças eram seres sem direitos e que não contavam do ponto de
vista legal, pelo menos enquanto não tivessem feito a cerimônia que definia a
pertença de um rapaz à comunidade do Povo de Deus. Eram, portanto, um símbolo
dos pequenos, dos sem direitos, dos pobres, dos indefesos, dos marginalizados.
São esses, precisamente, que a comunidade de Jesus deve abraçar. Desta forma, o
discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os
outros, mas quando abraça, quando ama, quando servem os pequenos, os pobres, os
marginalizados, aqueles que o mundo rejeita e abandona. É no pequeno e no pobre
que a comunidade acolhe o próprio Jesus, que também foi pobre, que Se torna
presente. Sintamo-nos como um dos pequeninos do Reino e reconheçamos Jesus como
Mestre, Senhor, Messias e Servidor. Assim seja! Amém.
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